O Caminho das Pedras

Em O Caminho das Pedras, a observação do chão urbano desloca o olhar do horizonte para aquilo que sustenta o caminhar cotidiano. As pedras portuguesas, recorrentes na paisagem das cidades brasileiras, são aqui tomadas não apenas como elemento arquitetônico, mas como superfície simbólica onde se inscrevem tensões entre permanência e desgaste, ordem e ruína, fluxo e contenção.

A série emerge de uma prática de deriva e atenção ao território, na qual o gesto fotográfico opera como um exercício de escuta visual. Ao isolar fragmentos do pavimento, as imagens suspendem a funcionalidade imediata do espaço público e convidam à contemplação de ritmos, falhas, remendos e desenhos que passam, em geral, despercebidos pelo transeunte.

Mais do que registrar padrões geométricos, o trabalho investiga a cidade como campo de negociação sensível. As pedras — assentadas, deslocadas ou recompostas — tornam-se metáfora das condições do sujeito contemporâneo diante das estruturas que o organizam e, por vezes, o restringem. Entre repetição e singularidade, cada fragmento aponta para uma cartografia silenciosa das experiências urbanas.

Ao propor esse deslocamento do olhar, O Caminho das Pedras insere-se no campo da urbanologia poética que atravessa a minha pesquisa, onde a superfície da cidade deixa de ser mero suporte e passa a operar como imagem crítica do nosso modo de habitar o espaço comum.