Laboratório de Esculturas Efêmeras

O Laboratório de Esculturas Efêmeras é um espaço de investigação artística que propõe a escultura como uma prática de montagem. Em vez de modelar ou esculpir um material específico, os participantes constroem relações entre objetos encontrados, memórias pessoais e elementos coletados no espaço, transformando fragmentos do cotidiano em estruturas carregadas de sentido.

Inspirado na liberdade inventiva de Arthur Bispo do Rosário e em práticas contemporâneas que ressignificam o descarte, o laboratório parte da ideia de que toda matéria possui uma história anterior à obra. Um pedaço de madeira, um fio, uma embalagem, uma pedra ou um objeto afetivo não são utilizados apenas por suas qualidades formais, mas pelas experiências que carregam e pelas novas relações que podem estabelecer quando reunidos.

Ao longo de cinco encontros, os participantes percorrem um processo que articula sensibilização, deriva, coleta, construção e reflexão crítica. A caminhada pelo Instituto Nise da Silveira deixa de ser apenas um deslocamento físico para tornar-se um exercício de atenção. Coletar é também perceber. É reconhecer que o espaço guarda vestígios, narrativas e materiais que normalmente passam despercebidos.

As esculturas surgem por meio de encaixes, amarrações, apoios e tensões, dispensando colas permanentes e privilegiando soluções reversíveis. Essa escolha faz com que a instabilidade deixe de ser um problema técnico para tornar-se parte da linguagem da obra. Cada decisão revela um equilíbrio provisório, evidenciando que construir é também negociar forças, pesos e fragilidades.

No decorrer do laboratório, os participantes são convidados a pensar suas produções como Monumentos ao Invisível. Não monumentos dedicados a feitos heroicos ou personagens ilustres, mas a tudo aquilo que sustenta silenciosamente a experiência humana: pequenos gestos, memórias, afetos, ausências, restos e acontecimentos cotidianos. O monumento deixa de celebrar o extraordinário para reconhecer aquilo que, quase sempre, permanece fora da narrativa oficial.

Mais do que ensinar procedimentos escultóricos, o laboratório propõe uma mudança de percepção. A criação acontece na montagem de relações: entre materiais e memórias, entre indivíduo e coletivo, entre objeto e território. A obra deixa de ser entendida como um fim em si mesma e passa a existir como um campo de encontros, onde cada elemento modifica o significado do outro.

Em sua primeira edição, realizada no Espaço Travessia, as esculturas produzidas integraram a exposição Movimentos ao Invisível, apresentada durante a ocupação Manifesto, em comemoração aos dez anos do espaço. Exibidas como um conjunto, preservam a singularidade de cada participante e, ao mesmo tempo, constituem uma cartografia coletiva de experiências, demonstrando que a escultura pode nascer menos da transformação da matéria do que da transformação do olhar.